quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A General

The General
EUA, 1927
Direção: Buster Keaton e Clyde Bruckman

"Buster Keaton é engraçado até sem fazer nada."
Citação de Os Sonhadores

A fase muda do cinema está improdutiva, mas não sepultada, temos o conforto de saber que certas películas se eternizaram. Dois atores, bastante prolíferos e com filmes ainda atuais, costumam ser citados como os mais importantes da época: Buster Keaton e Charles Chaplin. Eles escreviam, atuavam e dirigiam comédias, principalmente; tais semelhanças os levaram à concorrência e eternas discussões acerca de qual o melhor. O maravilhoso filme metalingüístico Os Sonhadores (The Dreamers, 2003), de Bernardo Bertolucci, estabelece o debate em um diálogo entre jovens cinéfilos sobre os astros, o interessante é que eles não chegam a um consenso ou uma conclusão. Roger Ebert, premiado crítico de cinema americano, chegou a citá-los como arqui-rivais... termo exagerado e desnecessário. Não vejo nenhum como superior, ambos são talentos inegáveis e ímpares que reinaram o cinema mudo. Contracenaram uma única vez, em Luzes da Ribalta (Limelight, 1952), protagonizado e dirigido por Chaplin, ironicamente, um filme sonoro, tecnologia que os arruinou. “Silêncio é dos deuses; só macacos tagarelam”, disse Keaton, que trabalhou essencialmente com imagens e não se adaptou perfeitamente aos filmes sonoros, firmados na década de 1930. Por vários anos ficou quase que totalmente esquecido, Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950) faz uma ótima anedota sobre o assunto, Buster Keaton e Anna Nilsson, veteranos do cinema mudo, jogam cartas ao lado de Norma Desmond, personagem fictícia interpretada por Gloria Swanson, algo como os integrantes do “clube dos artistas falidos”.

Buster Keaton no "Clube dos Artistas Falidos", cena de Crepúsculo dos Deuses

Fato comum nos filmes de Buster Keaton é a busca venturosa pela sua paixão, em A General, há duas paixões, a locomotiva, que intitula o filme, e a adorável Annabelle Lee (Marion Mack). Johnny Gray (Keaton) nos cativa desde o princípio, na cena em que se dirige à casa de Annabelle, no seu encalço estão dois garotinhos – na época da Guerra Civil Americana (1861–1865), cenário do filme, maquinista era uma profissão muito bem-vista e almejada por crianças, elas são admiradoras dele –, lá o jovem descobre que não tem chance como pretendente, senão trajando um uniforme militar. É impedido de alistar-se, não por ter 1.68 metro de altura e um porte físico atrofiado, mas porque é mais útil ao lado dos trens. Um das cenas mais significantes de A General vem a seguir, Gray, sentado na ferragem da locomotiva, pensando na mulher que lhe é agora impossível, sequer percebe o movimento das barras, absorto em sua frustração; algo semelhante estava planejado para a cena final, quando Gray e Annabelle estão sentados na mesma barra metálica, a idéia foi descartada, haja vista o risco que correriam (a preocupação, porém, era voltada exclusivamente a Marion Mack).

A aventura se inicia com o roubo da General junto ao seqüestro de Annabelle, e Johnny Gray usa a locomotora Texas para o resgate. Imagino que a maioria das pessoas – que não tenha visto A General – pensa em uma perseguição entre trens como algo enfadonho e repetitivo, até porque entre esses meios de transporte, andando sobre o mesmo trilho, jamais haverá ultrapassagem, mas Keaton estava no auge de sua criatividade. São incríveis as acrobacias e manobras que ele realiza, sem uso de dublês, para resgatar suas paixões, a cena em que ele usa um canhão e, involuntariamente, aproveita uma curva para disparar na direção de seus algozes é impagável, de uma perfeita precisão; outra em que, carregando o trem de lenha, coloca duas toras em um vagão e no terceiro arremesso derruba toda a carga que pusera, tudo feito num plano contínuo; na mais impressionante, porém, Gray tem de remover dois dormentes que bloqueiam os trilhos, sai do trem, tira o primeiro manualmente e o lança contra o segundo, livrando o caminho – um bloco de madeira, que deve pesar algumas dezenas de quilos, passa a cerca de metro da sua cabeça, isso quando não se podia contar com a ajuda de efeitos digitais. Fantástico. Depois desse segmento da saga, o paladino se infiltra no acampamento nortista, fica a par do plano adversário e se apossa de seus intentos. Com um enredo tão simples, este filme consegue uma montagem incrível, na segunda fase da perseguição a situação se inverte, e nosso herói usa as artimanhas que o estorvaram, agora, contra os soldados do norte, culminando na destruição do comboio inimigo.

As façanhas de Gray são mais surpreendentes do que burlescas, muitas gags vêm dos acidentes que lhe trazem vantagens, como o tiro de canhão que derruba a represa e arrasta os soldados do Norte, já no fim do filme. A personagem de Marion Mack também tem o seu lado cômico, ela é um empecilho para o herói – muito comum nas aventuras que entram em cartaz hoje em dia –, quando a lenha está escassa e precisam de combustível, ela seleciona a madeira que lhe agrada o olhar, descarta uma tora simplesmente por ter um furo, mero capricho feminino; também é incapaz de pôr em prática as instruções mais básicas de seu protetor para operar a General. Annabelle Lee é uma convincente vítima de seqüestro, ela sofre humilhações e pungências, é ainda mais doloroso quando nos lembramos das primeiras cenas, quando ela é apresentada como uma imaculada jovem do Sul. “A moça divertiu-se mais nesse filme do que em qualquer outro que havia feito. Penso que é porque muitas atrizes principais, naquela época, pareciam que tinham acabado de sair de um salão de beleza. Mantinham-nas sempre com esse aspecto – mesmo em carruagens, elas estavam sempre lindas. Ignoramos isso, sujamos a nossa heroína um pouco e demos-lhe um tratamento duro”, palavras do diretor.

A epopéia da comédia reserva um fim revigorante para Johnny Gray, mas não para Buster Keaton, pois foi um fracasso econômico nas bilheterias, junte a isso o alto custo de produção, toda a guerra, figurino e a destruição de uma ponte e uma locomotiva reais, a cena mais cara do cinema mudo. Seu talento se tornaria cada vez mais pálido, anos depois seria um modesto apresentador de um programa de TV com meia hora de duração. Nas últimas décadas, entretanto, a filmografia de Keaton foi ressuscitada, suas obras, especialmente A General, costumam entrar em listas de melhores filmes de todos os tempos. Justiça ainda que tardia.

Um comentário:

Luquinha disse...

Se eu ja tinha toda uma admiração pelo Chaplin e o cinema mudo,fiquei maravilhado com o q vi hoje com "O palhaço que não ri" pelo Telecine Cult e ja to baixando A General,to louco pra assistir,to vendo algumas coisa no Youtube tb,ele sabe muito bem como fazer comedia e fazer o publico rir,muito bom teu texto!
Abraço!