terça-feira, 14 de agosto de 2007

Pulp Fiction – Tempo de Violência

Pulp Fiction
EUA, 1994
Direção: Quentin Tarantino

A ordem dos fatos em Pulp Fiction é o que mais nos surpreende, a edição que o tornou o filme mais influente da década de 1990. Amnésia (Memento, 2000), Amores Brutos (Amores Perros, 2000) Sin City (Sin City, 2005) e vários outros filmes que brincam com a ordem cronológica receberam influências diretas de Pulp Fiction. Mas foi o roteiro que o consagrou como um dos grandes filmes de todos os tempos. Humor mordaz, muita menção à cultura pop e diálogos afinados, em que gângsteres conversam sobre sanduíche, televisão e massagem nos pés, “Nós não falamos sobre enredos nas nossas vidas. Gângsteres não falam somente sobre o enredo de suas vidas e pulem balas, enquanto conversam sobre assassinato”, diz Tarantino. Roteiro que foi visceral para o cinema dos anos 90, Fargo (1996), Boogie Nights (1997) beberam desse conteúdo. Ao contrário da ordem dos fatos, os diálogos estão seqüencialmente ordenados, tudo o que é dito é alicerce do que virá ou desenlace do que foi dito. Isso refuta a teoria de que a edição não foi previamente planejada, só depois das filmagens resolveram inverter.

No Brasil, a versão em DVD (distribuída pela Miramax) ganhou uma parca tradução, causando uma perda substancial da qualidade do filme, alguns fatores contribuem, como a linguagem marginal dos personagens, que dificilmente é adaptada para outras línguas; ainda há trocadilhos que só fazem sentido em inglês, como o desfecho da piada de Mia Wallace (Uma Thurman): “Ketchup”. O texto original é Catch Up – pronúncia parecida com a de ketchup – traduzindo, algo como "Alcancei" [o bebê tomate que ficava para trás], mas a piada continua sem graça. E a francesa Fabienne (Maria de Medeiros) que se olha no espelho e deseja ter uma bola (?). Na verdade, ela quer “a pot... a pot belly”, pot é gíria para haxixe, e pot belly, para barrigão. Também não faltou incompetência aos tradutores em algumas adaptações, nada fácil entender como Fox Force 5 (traduzindo, algo como Força da Raposa 5), grupo do programa de televisão de Mia, virou "Cinco Sedutoras Secretas".

Em Pulp Fiction e suas demais obras, Quentin Tarantino abusa do que Sergio Leone (Três Homens em Conflito, Era uma Vez no Oeste) chamava de Cinema de Cinema: homenagens e referências a outros filmes: no Jack Rabbit Slim’s os clientes são servidos por Zorro, Marilyn Monroe, James Dean, Mamie van Doren; a coreografia de Vincent Vega (John Travolta) e Mia, referência à dança de 8½ (assista às danças pelo YouTube clicando nos links); a forma como é filmada a cena no táxi de Villalobos (Angela Jones), similar à de Taxi Driver. Mas Tarantino vai além das referências e cria conexões entre o enredo dos filmes, incluindo Kill Bill, que seria lançado em 2003. O grupo descrito por Mia é semelhante em muitos aspectos ao Bando de Bill, o golpe de Butch Coolidge (Bruce Willis) com a espada foi o prelúdio das habilidades da Noiva (em Kill Bill, também interpretada por Uma Thurman). Há quem pense nisso como teorias irrelevantes, mas tudo faz sentido, haja vista que o argumento de Kill Bill saiu durante as gravações de Pulp Fiction, inclusive com idéias de Uma Thurman. Cinéfilos ainda especulam ligações com Assassinos por Natureza (Natural Born Killer, 1994), Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992) e outros. Essas conjecturas até renderam um intrigante curta-metragem brasileiro, Tarantino’s Mind, dirigido e escrito por Selton Mello e Seu Jorge.

Bruce na saída da loja com a Grace, moto estimada pelo policial sadomasoquista Zed

Todas as cenas de Pulp Fiction são passíveis de uma análise detalhada, para esta postagem escolhi um trecho do segmento “O Relógio de Ouro”, em que Butch vai resgatar o objeto que foi do seu pai. Pelas lembranças do pugilista sabemos que seu avô comprou o Relógio de Ouro em uma lojinha de Knoxville que vende de tudo, e do motivo por que o busca com tanta sagacidade, depois de descer do Honda ele chega à um trilha. Quando Butch atravessa a primeira casa, se ficar atento, poderá ouvir um anúncio do Jack Rabbit Slim’s, restaurante freqüentado por Mia e Vicent, que parece vir da televisão, isso explica a olhadela através da janela, o problema é que o anúncio não foi legendado, e na versão dublada é imperceptível, se é que existe. Quando o boxeador chega à sua casa, surpreende Vincent que saia do banheiro e o assassina, mas por que Vincent não levou a arma ao banheiro? E por que ele não reagiu ao barulho que Butch fez na cozinha? Depois, na rua, ele atropela o seu algoz, Marsellus Wallace (Ving Rhames), mas o que um chefe de máfia fazia em uma manhã com uma merenda nas mãos? Repostas: Marsellus é o novo parceiro de Vincent, talvez interino; nas cenas seguintes (cronologicamente anterior a esta) sabemos que Jules Winnfield (Samuel L. Jackson), ex-parceiro de Vincent, se retira da “vida”, Marsellus deixa a arma – de tamanho nada discreto para sair às ruas – para comprar a merenda, sempre que Vincent vai ao banheiro uma desgraça acontece, desta vez, a pior delas. Na perseguição, Butch e Marsellus acabam sendo abatidos em uma lojinha que vende de tudo, inclusive Relógios e Ouro (veja na vitrine da loja na figura acima: Gold, em inglês, é ouro; Watches, relógios). E por que Butch volta para salvar Marsellus após se livrar dos sadomasoquistas? Redenção, esse é um dos temas vigentes em Pulp Fiction, o mesmo motivo por que Jules não mata a dupla de assaltantes na lanchonete.

Pulp Fiction contou com vários fatores que o tornaria um fracasso, imagine você ir ao cinema para assistir a um filme que tem a seguinte sinopse: “Dois assassinos profissionais devem fazer cobrança para um gângster; um deles é forçado a sair com a garota do chefe, temendo passar dos limites; enquanto isso, boxeador se mete em apuros por ganhar luta que deveria perder”, e que esse ainda tem mais de duas horas e meia, e cujo título ninguém soube lhe explicar o que diabos significa, totalmente enfadonho! Esse último “erro”, Tarantino trata de “corrigi-lo” logo na primeira cena, com a definição dicionarizada de Pulp, daí já temos uma idéia de como serão os personagens; o resto é esculpido pelo roteiro e edição, que tratam de extirpar a rotina estereotipada da bandidagem e causar provocações no espectador, pois há certas cenas e detalhes que propositadamente têm o intuito de gerar discussões, como o trecho da bíblia lido por Jules, que só uma frase é realmente da bíblia: “Exercerei sobre eles uma vingança terrível, furiosos castigos; e, quando Eu executar sobre eles Minha vingança, saberão que Eu Sou o Senhor”, todo o resto é criação de Tarantino e L. Jackson; e a valise, cujo código para abri-la é 666, aliás, qual o conteúdo da maleta? E os relógios no porão da loja dos sadomazoquistas marcando 4h20min, que, segundo o site IMDb, é gíria para “hora de fumar maconha”.

Ah! E o filme conta com o grande atrativo do elenco – que fique registrado, mais de 60% do orçamento foi para os atores –, várias estrelas em ótima fase, destaco Samuel L. Jackson. Um grande filme, um grande sucesso. Justo.

3 comentários:

.... disse...

Olá.
Cheguei aqui através de uma mensagem que deixaste em uma comunidade do orkut.

Apenas tenho como objetivo incentivá-lo a continuar com seu blogger. A maior parte das pessoas lêem sim, mas é sempre difícil perceber isso.


Parabéns pela iniciativa.

Meg.

Uma folha,papel qualquer. disse...

: o

Verei com mais cautela agora.

Anônimo disse...

Genial!