quinta-feira, 5 de julho de 2007

Era uma Vez no Oeste

C’era Una Volta il West
Itália, 1968
Direção: Sergio Leone


Hoje em dia se produzem poucos faroestes, na década de 90 houve dois filmes do gênero vencedores do Oscar de melhor filme, Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) e Dança com Lobos (Dances With Wolves, 1990), algo só realizado anteriormente pelo filme Cimarron (Cimarron, 1931); nesta década, apenas um grande sucesso comercial, O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005), considerado por alguns críticos uma subversão do gênero pelo seu tema homossexual. Mas o faroeste já teve o seu período áureo; na época, as nações mais prolíferas eram Itália e Estados Unidos. No momento em que o cinema italiano sofria uma crise, os cineastas se atraíram pelos abastados produtores americanos, dessa união nasceu o Spaghetti Western, que gerou mais de duzentos filmes, os melhores dirigidos por Sergio Leone (Por um Punhado de Dólares, Três Homens em Conflito, Quando Explode a Vingança...).

Penso no faroeste como o gênero cinematográfico que mostra o desenvolvimento de uma região: a pequena cidade que acabou de receber o telégrafo, a construção da ferrovia, o jornal impresso etc. As civilizações demasiado urbanizadas em que vivemos, a globalização e toda a tecnologia que nos cerca não demandam mais os filmes que mostravam as pequenas sociedades campestres, talvez por isso a baixa produção de westerns em tempos atuais. Era uma Vez no Oeste deixa isso bem claro, normalmente, nos filmes do gênero, a cidade é composta por uma única rua principal, Flagstone, a cidade de Era uma Vez, é quase que uma metrópole do velho oeste, e a vemos sempre em construção.

Digo sem medo de errar que a seqüência inicial é uma das melhores já filmada. Os três homens armados esperando o trem na estação ferroviária é uma referência ao filme Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann (High Noon, 1952), mas em Era uma Vez o veículo está duas horas atrasado, e nos deleitamos com o tédio cômico dos caubóis. Leone pretendia reunir os astros de Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966) para essa cena: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach, mas Eastwood teve problema de agendamento e a idéia foi descartada. A trilha sonora é composta por ruídos, o zumbido da mosca, o gotejar, o moinho enferrujado constroem a orquestra, todos sons naturais, porém amplificado em laboratório. É uma marca registrada de Leone rodar cenas longas e lentas quebradas por ação brusca, rapidamente concluída, forte inspiração nos filmes japoneses de samurai, principalmente os dirigidos por Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu; Gaita, personagem responsável pela melhor atuação de Charles Bronson, é quem rompe o silêncio.

Jill McBain, interpretada pela bela Claudia Cardinale, é a personagem central – posição não muito comum para uma mulher nos westerns –, Frank, vivido por Henry Fonda, é o homem que está interessado na riqueza preparada pelo seu falecido marido e a trata como uma mera prostituta; Cheyenne, Jason Robards, tem uma relação maternal e amorosa ao mesmo tempo; Gaita é uma espécie de guarda-costas. Todos iniciam relação com ela por acaso. Frank é ambicioso e pensa em um dia abandonar a pistola para se apossar de uma arma ainda mais poderosa: o dinheiro, pois tem consciência de que não há lugar para caubói com o desenvolvimento das cidades, ele pensa em suceder Morton, personagem que sofre de uma deficiência e não tem força nem mesmo pra morrer (o seu nome já nos lembra a palavra morte). Ele é um Cidadão Kane do velho oeste, dono de linhas ferroviárias, possui grandes riquezas, mas seu maior desejo é conhecer o mar; ironicamente, ele passa suas últimas horas de agonia em uma praia de proporções muito menores, uma poça de água.

Leone disse que todos os personagens, exceto a de Cardinale, têm consciência de que não chegaram ao fim da trama vivos, ainda usando palavras de Leone, o filme “pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que uma pessoa exala antes de morrer. Era uma Vez no Oeste é, do começo ao fim, uma dança da morte”, suspiro que é muito bem trabalhado na morte de Morton; de Frank, orquestrado pela gaita; no vapor exalado pelo trem.

A película é soberba em imagens, Fitz Lang (M – O Vampiro de Düsseldorf, Metrópolis) disse que o formato estendido dos filmes “só presta para cenas de serpentes e enterros”, e para Sergio Leone, eu acrescento. O Filme faz uso magistral do formato, seja na cena de enterro, como sugere Lang, nos duelos ou nas externas, destaco as cenas de Monument Valley, quase um personagem dos filmes de faroeste, Era uma Vez foi quase todo rodado em desertos da Espanha, mas Sergio Leone achou imprescindível adicionar esse cenário. Ennio Morricone, com toda a justiça, compôs uma das mais belas trilhas sonoras da história do cinema, impossível não cantarolar Like a Judgement, tema do personagem de Henry Fonda.

O último faroeste e penúltimo filme da carreira de Sergio Leone é o épico que parece nos despedir do gênero. O trem chega a Água Doce, que se tornará uma grande cidade, o sonho que McBain deixou de herança, os caubóis não têm espaço nesse tipo de lugar. Gaita tem de dar adeus.

3 comentários:

Spinoza disse...

O uso do formato é tão bem feito que na tv ele passou no formato original no tele cine, normalmente eles vêm alterado do próprio estúdio antes de mandar pra redes de televisão como disse janot, apresentador do tele cine cult.
O gaita não tem a moral duvidosa como os personagem da trilogia do dólar, em que pensam mais no dinheiro; gaita só quer sua vingança e garantir o sonho de claudia cordinale, já que não possível o de seu marido. A música também é perfeita, faz parte da trama aumentando a dramaticidade junto o suspense que Leone faz magistralmente. Um filme perfeito.

correr para viver disse...

a impressão que eu tinha era que o tiro de Bronson deu em fonda e o mesmo tentou atirar, mas seu tiro saiu quando Fonda virou o corpo,eu achei que tinha acertado o Jason na casa,por isso,o corte da navalha no rosto e a morte em seguida.
Mesmo assim, filme de gala.

correr para viver disse...

a impressão que eu tinha era que o tiro de Bronson deu em fonda e o mesmo tentou atirar, mas seu tiro saiu quando Fonda virou o corpo,eu achei que tinha acertado o Jason na casa,por isso,o corte da navalha no rosto e a morte em seguida.
Mesmo assim, filme de gala.